Os Carimbos de Dona Euzébia | Cláudio Coelho

Por Cláudio Coelho

Abril de 2020


Para tentarmos entender a história postal do atual município de Dona Euzébia (MG) em seus primeiros tempos, através da carimbologia, precisamos antes entender a origem dessa localidade. Para tanto, vamos a um breve histórico:

  • 1880 a 1923: povoado no distrito de Cataguarino, município de Cataguases

  • 1923 a 1838: elevado a distrito de Cataguases, com nome alterado para Astolfo Dutra

  • 1938 a 1962: distrito do município de Astolfo Dutra, voltando a chamar Dona Euzébia

  • 1962 em diante: município de Dona Euzébia.


Até o final da década de 1870, não havia um núcleo urbano propriamente dito na região, apenas fazendas, em sua maioria de café. Esse cenário começa a mudar quando a fazendeira Euzebia de Souza Lima doa parte de suas terras para a construção de uma estação da Estrada de Ferro Leopoldina, o que ajudaria os fazendeiros locais escoarem sua produção. O gesto lhe rendeu uma homenagem da E.F.L., que batizou a estação com o nome de Euzebia. A povoação que começa a crescer no entorno da estação vai ficando conhecida pelo mesmo nome.


Aqui começam os problemas para os estudiosos da carimbologia local. Não há um consenso a respeito da data exata de inauguração da estação. Ralph Mennucci Giesbrecht, em seu site “Estações Ferroviárias do Brasil”, cita 23 de abril de 1879 como data provável de abertura. No entanto, menciona que outras fontes atribuem o dia 28 de fevereiro de 1880. Constatamos que essa informação está no livro“História Postal de Minas Gerais”, de José Francisco de Paula Sobrinho.


Assim como a inauguração da estação, a data de criação da agência do correio também é controversa. Reinhold Koester, em sua obra “Carimbologia do Brasil Clássico”, cita o dia 15 de julho de 1881. Porém, matéria do jornal “O Repórter”, publicada em 25 de abril de 1879, nos dá outra informação:

“Da repartição do Correio Geral, nos communicam que foram creadas as seguintes agencias que principiarão a funccionar no dia 26 do corrente em diante: (...)
Santa Euzebia, na estrada de ferro da Leopoldina, para onde se expedirá malas diariamente, recebendo-se as correspondências pela mesma forma estabelecida para os outros correios que seguem pela estrada de ferro D.Pedro II.”

Tal informação nos parece bastante plausível e nos leva à apresentação do primeiro carimbo da estação, de cercadura oval e legenda E. DE Sta EUZEBIA, identificado por Paulo Ayres sob o número 1455, em sua obra “Catalogo de Carimbos (Brasil – Imperio)”, de 1937.


Figura 1

O autor marcou abaixo de todos os carimbos apresentados a ele as iniciais de seus proprietários, nesse caso H.C. (Dr. Humberto Cerruti) e o ano de emissão do selo em que o carimbo foi encontrado. Tal data não significa que a agência, e portanto a estação, já existiam em 1878, apenas que o carimbo mais antigo que ele conhecia na época estava sobre um selo das emissões de 1878, D.Pedro Barba Branca ou Auriverde .


Como não bastasse a divergência de datas, também o nome da estação gera controvérsias. Em seus primeiros anos ela era chamada Estação de Santa Euzebia, como vemos no carimbo anterior. Giesbrecht cita que tal denominação vai até 1885, quando muda para Dona Eusebia. Não conseguimos descobrir o motivo da mudança de nome. Tal situação gerou, inclusive, dúvidas sobre a possibilidade de existirem duas agências diferentes, com nome parecido. Ao tratar de Dona Eusebia, Koester cita a existência de apenas dois carimbos circulares comuns (que veremos adiante), mesmo com Paulo Ayres já tendo publicado seu trabalho quase 40 anos antes e apresentado o carimbo oval. Não acreditamos que Koester desconhecia tal carimbo, o mais provável é que não tenha conseguido levantar dados suficientes para comprovar que se tratava da mesma localidade. Como seu trabalho, infelizmente, só foi até a letra “P”, não chegou a tratar de Santa Euzebia.


A respeito do nome e localização da agência, vale ressaltar que o Guia Postal do Império de 1880 não traz nenhuma referência à estação de Santa Euzebia, mas sim a uma agência Dona Euzebia, que estaria localizada no Rio de Janeiro. Aqui acreditamos tratar-se de um equivoco, visto não existir nenhuma outra referência a uma localidade chamada Dona Euzebia, que não seja a localizada em Minas Gerais, inclusive em inúmeras matérias de jornais da época, nas quais a estação é identificada como Santa Euzebia. Então, o mais provável é que nos primeiros anos o povoado fosse conhecido como Dona Euzebia e a estação como Santa Euzebia, até esta ter seu nome igualado ao da localidade, o que nos leva ao que acreditamos ser o segundo carimbo da agência:


Figura 2

Aqui temos um chamado carimbo misto, nada mais que a união de um circular comum, com um “mudo” no lugar do datador, tipo bem limitado no Império. Novamente surge a dúvida de por que Koester não listou este carimbo em seu trabalho, já que também tinha sido mostrado no catálogo de Paulo Ayres, sob o número 1727, propriedade de Figueiredo Filho, sobre emissão de 1888. Além da clara possibilidade de um descuido, podemos também inferir que, com a ausência de datador e a emissão mais antiga sobre a qual foi usado já ser quase do período republicano, Koester pode não ter se convencido da utilização de tal carimbo durante o Império, o que fugiria do escopo de sua obra. Sobre o carimbo em si, em comparação com o da Figura 1, note-se que o nome já aparece com o “D.” de Dona ao invés do “Sta” de Santa e a palavra Estação completa e não abreviada. Alguns detalhes nos levam a crer que este foi o segundo carimbo utilizado na agência, como a palavra Euzebia escrita com “Z”, mesma grafia do anterior, e sua utilização em selos da emissão de 1882, D.Pedro II Cabeça Grande, não conhecido na época de Paulo Ayres. Não descartamos, no entanto, a hipótese desse carimbo ter sido utilizado concomitantemente com os próximos da lista, ele obliterando os selos e os outros datando a carta, faltando para tanto peças que comprovem essa tese. O primeiro carimbo datador a aparecer é um circular comum:



Figura 3

Trata-se do carimbo mais duradouro utilizado pela agência, encontrado em selos desde 1885 até o início do século XX. A legenda é bem parecida com a do carimbo anterior (Figura 2), a não ser pela grafia da palavra Eusebia com a letra “S’, o que tornou-se padrão daí em diante. Conhecemos esse carimbo sobre as emissões da Casa da Moeda, D.Pedro II Cabeça Grande, Cabecinha e Tipo Cifra, além de emissões republicanas. A seguir, aparece outro circular comum, sem a palavra “Estação”, existindo com e sem datador:



Figura 4

A ausência da palavra estação levanta novamente a dúvida de se tratar de outra agência, porém, a localidade era muito pequena e não comportaria duas agências do correio. Além do mais, o núcleo urbano foi crescendo em volta da estação, o que também nos faz descartar a hipótese de uma agência ferroviária e outra no povoado. Vale ressaltar que o grupo de estudos Arge Brasilien, em sua “Lista das Agências Postais no Império do Brasil”, menciona a mesma localidade em Minas Gerais, com duas denominações diferentes, Dona Eusebia e D. Eusebia. Para complicar ainda mais, os carimbos da Figura 4 aparecem em selos das mesmas emissões que o da Figura 3, ou seja, D.Pedro II Cabeça Grande e Cabecinha, no entanto, em datas que nos pareceram posteriores, mesmo sem a possibilidade de identificação exata das mesmas, como se pode analisar nas imagens em anexo, ao final deste trabalho.


Em relação a cores, nos faltam informações mais precisas que possam complementar o que Koester já tinha levantado. Ele diz conhecer os circulares comuns em tonalidades que vão de azul escuro até o preto, o que comprovamos nas peças às quais tivemos acesso. Já os dois primeiros carimbos só conhecemos na cor preta.


Por fim, aparece um outro circular comum, novamente com a palavra Estação, mas sem datador. Esse carimbo não é outro senão o mesmo da Figura 3, que em algum momento já do período republicano, perdeu o datador. Conhecemos tal carimbo sobre a emissão Madrugada Republicana, de 1897.



Figura 5

Como a maioria dos estudos na área de carimbologia, este também não se pretende infalível e a indicação de possíveis falhas, ausências e complementos são muito bem vindas. Este trabalho só foi possível graças às contribuições de renomados filatelistas brasileiros, reunidos no grupo virtual “Império e Republica – Estudos”. Vários deles disponibilizaram informações sobre o tema, além de imagens de suas coleções pessoais, os quais agradecemos nominalmente:

  • André Matzenbacher

  • Fausto Soares Guzella

  • Fuad Ferreira Filho

  • José Renato Coelho de Souza

  • José Luiz Pedreira

  • José Junges

  • Klerman Wanderley Lopes

  • Marcio Protzner


Referências Bibliográficas

AYRES, Paulo – Catalogo de Carimbos (Brasil – Imperio). 1937

COSTA, Alexandre Ferreira da – Itinerário por Ordem Alphabetica das Malas Terrestres Expedidas pelo Correio da Capital Federal. Imprensa Nacional, 1890

GIESBRECHT, Ralph Mennucci – Estação de Dona Euzébia, in www.estacoesferroviarias.com.br (acessado em 15/04/2020).

Guia Postal do Império do Brazil. Typographia Nacional, RJ,1880

Jornal “O Repórter”, matéria publicada em 25 de abril de 1879

KERKHOFF & WITTIG – Lista das Agências Postais no Império do Brasil. 1983

KOESTER, Reinhold – Carimbologia do Brasil Clássico, Brasil Filatélico nº 169, 1974

MEYER, Peter – Catálogo de Selos do Brasil. RHM, São Paulo, 2016

PAULA SOBRINHO, José Francisco. – História Postal de Minas Gerais: Caminhos, Correios,Formação. Ed. O Lutador, Belo Horizonte, 1997

RODRIGUES, Janaína Célia – Silêncio, Curiosidades e Descobertas: O Início do Povoamento em Dona Euzébia. FIC, Cataguases, 2010


Anexos









Coleção de Klerman Wanderley Lopes


Coleção de Márcio Protzner








Coleção de Fuad Ferreira Filho



















Coleção de José Renato Coelho de Souza


Coleção de José Junges
















Coleção Alberto Quast (in Koester, 1974)

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