O início das relações postais entre o Brasil e a França

Klerman Wanderley Lopes

Philippe Jean Damian Janeiro 2000

É importante observar que, antes da Convenção Postal Brasil-França de junho de 1860, não existia uma convenção postal entre o Brasil e a França e, por essa razão, em princípio, os Correios Brasileiros não enviavam correspondência àquele país utilizando barcos franceses.


Sendo aliado tradicional da Inglaterra, Portugal foi invadido pelas tropas Napoleônicas em 1807, forçando a família real a exilar-se no Brasil, sua maior colônia de ultramar, sob proteção da esquadra naval inglesa. Em 1808 o rei D. João VI decretou a abertura dos portos brasileiros às nações amigas e, em 1810, assinou um acordo postal com a Inglaterra, prevendo uma linha regular de veleiros entre os portos do Rio de Janeiro e o de Falmouth (“Falmouth Packets”) e formalizando uma ligação que já se iniciara em 1808.


O contexto político existente entre esses dois países europeus deve ser relembrado. Durante a Revolução Francesa, a partir de 1793, as duas nações estiveram em guerra, o que perdurou até o tratado de paz de Amiens, no final de 1801. A paz ensejou a assinatura da convenção postal franco-britânica de 1802, mas já em 1803 as relações novamente se deterioraram, com uma sucessão de hostilidades danosas ao comércio marítimo. Em 1806 a Inglaterra impôs bloqueio naval às costas francesas, no que foi seguido pela França em relação às Ilhas Britânicas. Tal situação perdurou até 1815, quando a queda de Napoleão e o retorno da realeza à França ensejaram a paz entre as duas nações.


Recordamos esses fatos, pois são de grande importância para as relações de qualquer espécie entre o Brasil e a França, explicando porque é tão difícil encontrar correspondência entre os dois países entre 1800 e 1815. Apesar da assinatura de acordos e convenções, a França e a Inglaterra sempre foram rivais no que se refere ao transporte de correspondências. Assim é que, se desde 1808 a Inglaterra havia implantado uma linha regular de navios para o Brasil, a França contava apenas com os veleiros comerciais ou navios de guerra que, eventualmente, aqui aportavam. Tal é a razão pela qual a Administração dos Correios Britânicos exercia virtual monopólio sobre as trocas de correspondência no Atlântico Sul.


Os primeiros paquetes a vapor começaram a aparecer antes de 1840, ano em que os britânicos implantaram um serviço postal entre a Inglaterra e os Estados Unidos. A França seguiu o exemplo inglês e através a Lei de 16 de Julho de 1840, decidiu estabelecer várias linhas de navios a vapor para as Américas, uma delas em direção ao Brasil. Com esse propósito, duas viagens de estudo foram realizadas em 1842 e 1843 pela fragata “Gomer”, resultando, em março de 1844, na conclusão de uma convenção postal com o Brasil que, de fato, não foi assinada. Um crescente número de comerciantes franceses aqui estabelecidos aguardava com impaciência o estabelecimento dessa linha de transporte marítimo, dando preferência à ligação entre os portos do Rio de Janeiro e Le Havre. No entanto, o governo francês não deu continuidade aos compromissos firmados, resultando nula essa tentativa. Por sua vez, em 1850 a Inglaterra começou a discutir com as autoridades brasileiras a implantação de uma linha de paquetes a vapor entre os portos do Rio de Janeiro e Southampton, em substituição aos veleiros que já operavam nessa rota. Assim é que em janeiro de 1851 iniciam-se as operações da “Royal Mail Steamship Company”. A França continuava a utilizar informalmente os navios de comércio que, sem regularidade, depositavam as cartas transportadas nos diferentes portos de desembarque, como os de Le Havre, Nantes e Bordeaux. Devido à crescente importância das trocas comerciais entre o Brasil e a França e dada a falta de iniciativa governamental, companhias privadas tentaram implantar-se na linha marítima entre os dois países. Assim é que em 1853 e 1854, a companhia de navegação mista “L. Arnaud, Touache fréres et Cie” de Marselha realizou 2 viagens e a sua sucessora, “Arnaud, Touache”, operou 5 viagens em 1856 e 1857. Com um pouco mais de proveito, a “Compagnie Franco-Américaine Gauthier fréres” fez nove viagens nessa rota em 1856.


Somente em 1857 o governo francês decidiu revisar a Lei de 16 de Julho de 1840 e fazer acordos de subvenção com as companhias privadas, viabilizando os serviços previstos anteriormente. Desse modo, um decreto imperial de 19 de setembro de 1857 aprovou o acordo com a “Compagnie des Messageries Impériales”, assinado em 16 de setembro, para o estabelecimento de uma linha de paquetes para a ligação postal com o Brasil e os países da Bacia do Prata. As viagens regulares só tiveram início em 1860, com a assinatura da Convenção Postal França-Brasil.

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