As marcas de intercâmbio francesas “F” sobre cartas brasileiras - Klerman W. Lopes

Dezembro 2004


Introdução


Tal como acontecera em relação à Inglaterra, a partir de 1857 a França assinou uma série de Convenções Postais com governos estrangeiros, inicialmente com a Áustria, Prússia, Brasil, Tour e Taxis, Suíça e Portugal. Tais Convenções previam, em sua regulamentação, que correspondências não previamente franqueadas ou com franquia insuficiente, despachadas com a participação do serviço postal Francês, seriam identificadas, à frente e com tinta negra, com uma marca portando a inicial “F”, seguida do número do artigo da Convenção em que estaria previsto o reembolso ao Correio Francês pelo serviço prestado.

A Convenção Postal Brasil-França, vigente a partir de 1º de outubro de 1860, especificava, no regulamento para sua execução, como as correspondências deveriam ser discriminadas a crédito da França, nas contas entre as repartições dos Correios francês e brasileiro, no caso das cartas vindas para o Brasil. Para essas correspondências, o Serviço Postal Francês especificava marcas de intercâmbio “F” de diversos modelos, a serem aplicadas de acordo com os respectivos Artigos especificados na Convenção, de número 17 até 25 para as cartas e de 26 a 28 para os impressos. Esses números de artigos eram manuscritos sobre os formulários franceses de aviso modelo B, que acompanhavam cada remessa de mala postal de uma agência francesa para uma agência brasileira. Apesar de constar no modelo B, as cartas vindas de Portugal não recebiam nenhuma marca “F”, porém pagavam uma taxa no Brasil.

Assim estava estabelecido:

O artigo 17 dizia respeito às cartas não seladas, vindas da França e Argélia. Marca aplicada em preto pelas agências terrestres ou pelos agentes embarcados da linha do Brasil e da linha J; esta marca é também conhecida em vermelho e em azul (cor não regulamentar). Segundo R. Salles, utilizada entre 1861 e 1874.

O artigo 18 referia-se às cartas não seladas, vindas do Senegal e de Gorée. A ser aplicada unicamente pelos agentes embarcados da linha do Brasil e da linha J, esta marca é ainda desconhecida.

O artigo 19 referia-se às cartas não seladas vindas de Buenos Aires e do Uruguai. Aplicada unicamente pelos agentes embarcados da linha anexa do Prata, depois da linha K e, finalmente, da linha J.

O artigo 20 referia-se às cartas não seladas vindas da Inglaterra.

O artigo 21 referia-se às cartas não seladas, vindas da Bélgica, Holanda, Suíça, Estados Sardos, Toscana, Estados da Alemanha, Prússia e Áustria.

O artigo 22 referia-se às cartas não seladas, vindas dos Estados Pontifícios, Duas Sicílias, Malta, Grécia, Dinamarca, Suécia, Noruega, Rússia, Polônia, Ilhas Iônicas, Agências Francesas no Mar Mediterrâneo e na Índia e Possessões Francesas. A marca F 22 só é conhecida aplicada por engano em cartas de outras origens.

O artigo 23 referia-se às cartas não seladas vindas dos Estados Unidos e das Ilha Sandwich, sendo estas seladas obrigatoriamente até São Francisco.

O artigo 24 referia-se às cartas vindas da Espanha e de Gibraltar, que deveriam estar obrigatoriamente seladas até a fronteira franco-espanhola. Esta marca é ainda desconhecida.

O artigo 25 referia-se às cartas não seladas vindas da Austrália (via Suez), localidades do Mar das Índias e do mar da China (via Suez), e de outros países de além-mar. Esta marca é ainda desconhecida.

O artigo 26 referia-se aos impressos com taxas de trânsito ou de via de mar vindos de Buenos Aires e do Uruguai. Marca ainda desconhecida.

O artigo 27 referia-se aos impressos com taxas de trânsito ou de via de mar vindos da Espanha e de Gibraltar. Marca ainda desconhecida.

O Artigo 28 referia-se aos impressos com taxas de trânsito ou de via de mar vindos de países de Ultramar sem distinção de origens. Marca ainda desconhecida.

Como ilustração, apresentamos uma carta da França para o Brasil com franquia insuficiente e, portanto, sujeita às condições previstas no Art. 17:


Fig. 1- Carta escrita em 23 de junho de 1866, de Le Havre para o Rio de Janeiro, franqueada com 2 selos franceses de 80 cêntimos, valor correspondente ao 2º porte para o Brasil. Como o seu peso excedia a essa franquia, recebeu um carimbo francês de «Affranchissement Insuffisant» em vermelho e foi considerada como não franqueada, sendo aposta a marca de intercâmbio “F 17”. Na chegada ao Brasil em 18 de julho de 1866 (carimbo Correio Geral da Côrte no verso), recebeu a taxa manuscrita em azul de 840 Réis, correspondente ao 3º porte de acordo com Convenção Postal Brasil-França de 1860. (Col. KWL)

Fig. 1 - Carta de Le Havre para o Rio de Janeiro com a marca “F/17” - 23 de junho de 1866.

Cartas despachadas do Brasil

Para as cartas despachadas do Brasil e que se destinavam às nações conveniadas com a França, aplicava-se o mesmo tratamento anteriormente descrito, enquadrando-as nos diversos artigos de seus acordos postais. No caso da Grã- Bretanha, utilizavam-se outros procedimentos e marcas de intercâmbio, baseados nas Convenções Postais Franco- Britânicas de 1843 e 1857.


A seguir, pelo estudo dessas marcas de intercâmbio em ordem numérica, mostraremos algumas situações, nas quais correspondências originadas no Brasil foram submetidas a procedimentos postais que implicavam em ressarcimento ao Correio Francês pelos serviços prestados. Isso ocorrendo, as marcas de intercâmbio “F” eram aplicadas na frente das cartas.


a) Marca F. 21”

Artigo 21 da Convenção Postal entre a França e os reinos associados da Suécia e da Noruega, de 31 de outubro de 1867, em vigor a partir de 1º de fevereiro de 1868. Para cartas não franqueadas em trânsito do Pacífico Sul, América Central, México pela via do Panamá, Estados Unidos, Brasil e Ilhas Sandwich. Taxa de entrega de 1F 31 cêntimos por cada 10 gramas. Conhecemos dois tipos dessa marca:

1º tipo: Fig. 2 - Carta de Campinas de 3 de agosto de 1869 para Estocolmo (Suécia). Trajeto marítimo por navio britânico, sendo despachada da Inglaterra à França com entrada pelo porto de Calais. Ali recebeu em 30 de agosto de 1869 o carimbo “Brésil / Amb. Cal. Lille B” e foi enviada por ferrovia até Hamburgo (Alemanha), de onde foi encaminhada até o seu destino. Marca de intercâmbio “*F. 21*” aplicada provavelmente em Lille. Taxa sueca de 117 öre, equivalente ao 1º porte. (Col. Jeffrey Bohn).

Tipo 1 - Aplicada em Lille. Utilização conhecida em 1869.
Fig. 2 - Carta de Campinas de 3 de agosto de 1869 para Estocolmo. Marca de intercâmbio “*F. 21*”

2º tipo: Fig. 3 - Carta do Rio de Janeiro de 22 de dezembro de 1869, endereçada a Upsala (Suécia) e transporta- da pelo navio “Estramadure”, das “Messageries Impériales”. Entrou na França por Bordeaux e foi enviada a Paris, ali recebendo o carimbo em azul “Brésil / 2 Bordeaux 2” de 18 de janeiro de 1869 e a marca de intercâmbio “F.*21”. De Paris foi despachada à Suécia. O destinatário pagou a tarifa de 112 öre (1º porte). (Col. KWL)

Tipo 2 - Aplicada em Paris. Utilização conhecida em 1869.
Fig. 3 - Carta do Rio de Janeiro de 22 de dezembro de 1869, para Upsala (Suécia). Marca de intercâmbio “F.*21”.

b) Marca “F. 22”

Artigo 22 da Convenção Postal entre a França e os Países-Baixos de 22 de janeiro de 1868, em vigor a partir de 1º de abril de 1868. Para cartas não franqueadas em trânsito da América Central, México pela via do Panamá, Estados Unidos, Brasil e Ilhas Sandwich. Taxa de entrega de 1F 20 cêntimos por cada 10 gramas. Apresentamos exemplo de sua aplicação:

Fig. 4 - Carta do Rio de Janeiro de 23 de junho de 1871 para Deventer (Holanda). Trajeto marítimo por navio britânico, sendo despachada da Inglaterra à França com entrada pelo porto de Calais. Ali recebeu o carimbo “Brésil / Amb. Cal. Lille A” e foi enviada por ferrovia até o destino. Marca de intercâmbio “*F. 22*” aplicada provavelmente em Lille. Taxa holandesa de 140 cêntimos (2º porte), na chegada em 20 de julho. (Col. Jeffrey Bohn).

Utilização conhecida em 1869.
Fig. 4 - Carta do Rio de Janeiro de 23 de junho de 1871 para Deventer (Holanda). Marca de intercâmbio “*F. 22*”.

c) Marca “F. 23”

Artigo 23 da Convenção Postal de 27 de maio de 1867 entre a França e a Dinamarca, em vigor a partir de 1º de fevereiro de 1868. Para cartas não franqueadas em trânsito do Pacífico Sul, América Central, México pela via do Panamá, Estados Unidos, Brasil e Ilhas Sandwich. Taxa de entrega de 1F 20 cêntimos por cada 10 gramas. Apresentamos exemplo de sua aplicação:

Fig. 5 - Carta da Bahia de 8 de março de 1870 para Copenhagen (Dinamarca). Transportada pelo paquete “Uruguay”, das “Messageries Impériales”, entrou por Bordeaux (França) em 1º de julho de 1870 e dali foi enviada ao “Bureau Étranger” de Paris, onde recebeu a marca de intercâmbio “”F. *23”. Daquela cidade foi despachada por ferrovia até o seu destino. Taxa dinamarquesa de 52 skillings (1º porte), aplicada na chegada. (Col. Jeffrey Bohn)

Utilização conhecida entre 1868 e 1872.
Fig. 5 - Carta da Bahia de 8 de março de 1870 para Copenhagen (Dinamarca). Marca de intercâmbio “”F. *23”.

d) Marca “F. 26”</