A via das Ilhas Anglo-Normandas - Brasil para a França entre 1820 e 1843

A via das Ilhas Anglo-Normandas para as correspondências enviadas do Brasil para a França entre 1820 e 1843

Damian, Philippe Jean

Lopes, Klerman Wanderley


Introdução:

Analisando-se as relações postais do Brasil com a França no século XIX, observa-se a ausência de convenções postais entre os dois países até 1860. Desse modo, as cartas eram enviadas por meio do Correio Inglês (desde 1810 foram estabelecidos acordos postais com a Inglaterra), ou por via dos navios de comércio de diversos países que por aqui aportavam. Na segunda hipótese as cartas eram entregues aos comandantes dos navios, que, à sua chegada aos portos da Europa, as entregavam às autoridades postais locais ou a agentes especializados (Forwarders) que se encarregavam de fazê- las chegar ao destinatário. Ao estudar as diversas vias existentes observa-se que, a partir de 1820, começam a aparecer correspondências que transitam pelas Ilhas Anglo-Normandas (Guernesey e Jersey) antes de serem encaminhadas ao seu destinatário final na França. Consideraremos 1820 como o ano inicial dessa rota, uma vez que não temos conhecimento de cartas anteriores a essa data e solicitamos aos leitores o envio de referências e reproduções de peças circuladas em datas mais precoces.


Três aspectos importantes explicam parcialmente o porquê da utilização da via das Ilhas Anglo-Normandas pelos expedidores das correspondências escritas no Brasil:

  • Essas ilhas situam-se a uma curta distância dos portos franceses de Saint- Malo, Cherbourg e Granville, como se pode notar na figura 1. Observa-se que a ilha de Jersey geralmente se comunica com os portos de Saint-Malo e Granville e a de Guernesey com o porto de Chergourg.

  • Um segundo aspecto de importância refere-se ao fato que essas ilhas detinham um estatuto postal particular a partir do século XVIII, o que perdurou até 1843. Desse modo não obedeciam totalmente às regulamentações postais do correio inglês, o que permitia que as correspondências endereçadas à França provenientes do ultramar e encaminhadas através de Jersy e Guernesey fossem enviadas diretamente aos seus destinatários, contrariando as normas do correio inglês que previa a passagem obrigatória por Londres de toda correspondência transportada por navios britânicos.

  • Finalmente, ao analisarmos as tarifas das cartas vindas do Brasil via correio inglês, observamos duas situações, de acordo com o tipo de navio:

a) Por navio-correio: A tarifa até Londres era geralmente de 43 pence, equivalente à época a 43 décimos de franco francês. Até 1836 esse era o valor a ser pago na Inglaterra às autoridades postais para que as cartas pudessem ser encaminhadas ao destinatário francês

b) Por navio de comércio: A tarifa era de 8 pence, equivalentes a 8 décimos e devendo igualmente ser pago na Inglaterra. Nessa hipótese havia a necessidade da intermediação de um agente encaminhador (forwarder) que pagasse o porte inglês e enviasse a correspondência até o destinatário.

Fig. 1 – Ilhas anglo-normandas e portos de entrada na França.

O custo e as dificuldades que o correio inglês impunham às correspondências para países não cobertos por convenções postais com o Brasil explicariam a procura por rotas alternativas. Com efeito, uma carta para a França proveniente de países do ultamar e sendo despachada através das ilhas anglo-normandas pagava apenas 1 décimo de franco pela via marítima. Observamos também que durante o período 1820-1843 cartas enviadas por navios de comércio passaram pela via das ilhas anglo-normandas.

O Estudo:

Examinaremos as características das cartas provenientes do Brasil e com passagem pelas vias de Jersey e Guernesey entre 1820 e 1843, relacionando a cada período os regulamentos a que estavam sujeitas, de acordo com as convenções França-Inglaterra. Serão apresentadas as marcas de entrada na França e os três tipos possíveis de tratamento das cartas pelas autoridades postais francesas:

  • Correspondência considerada como proveniente das colônias francesas.

  • Correspondência considerada como proveniente de países do ultramar.

  • Correspondência postada por portador na França após haver transitado em Jersey ou Guernesey.


Do ponto de vista cronológico, três períodos serão considerados:


1- Primeiro período (1820-1833):


O envio de correspondências das ilhas anglo-normandas para a França era regido pela convenção França-Inglaterra de 1802, em uma época de freqüentes interrupções do tráfego postal devido a conflitos entre os dois países. Essa convenção foi parcialmente modificada em 1815 após a normalização de suas relações postais. Devemos considerar dois pontos relevantes:

a) Sob o tratado de 1802 as cartas provenientes das ilhas anglo-normandas e endereçadas à França não eram consideradas como vindas da Inglaterra.

b) Após a retomada das relações postais de 1815 as cartas vindas de Jersey e Guernesey continuaram a ser consideradas pela França como provenientes das colônias por meio de navios de comércio. No entanto, uma circular de 1816 informava aos responsáveis pelos serviços postais da Ilha de Guernesey que as cartas dali procedentes e endereçadas à França deveriam ser consideradas como vindas da Inglaterra e devendo ser enviadas por Londres, com entrada em Calais. As cartas de Jersey continuaram a ser tratadas como oriundas das colônias pelas vias de comércio e recebiam na França a marca de entrada “COLONIES PAR....”. Ao examinarmos a carta a seguir descrita, verificamos que isso nem sempre aconteceu:

1821 - Carta do Rio de Janeiro de 15 de septembro de 1821, endereçada a Le Havre pela via de Guernesey. Recebeu na França a marca de entrada negra “COLONIES PAR/CHERBOURG” (Salles T1 pg.16 fig. 50) e a tarifa de 7 décimos de franco a pagar pelo destinatário (1 décimo pela via de mar e 6 décimos pelo trajeto entre Cherbourg e Le Havre - Tarifa de 1806). Essa carta contem duplicata de uma outra escrita em 28 de agôsto, encaminhada pela via de Jersey ao mesmo destinatário. (Col. KWL - Fig. nº 2)

Fig. 2 – Do Rio de janeiro a Le Havre via Guernesey e Cherbourg

Certamente motivada por reclamações inglesas, a administração dos correios franceses decidiu criar em 1823 a marca “GRANDE BRETAGNE / PAR ” que deveria ser aplicada em todas as correspondências vindas das Ilhas Anglo-Normandas e que entrassem pelos portos de Saint-Malo, Granville ou Cherbourg. Além dessa marca, a carta recebia um selo-fixo de 6 décimos pelo percurso até o porto e a tarifa pelo percurso interior segundo a tarifa em vigor. Exemplificamos nas cartas a seguir:


1829 - Carta do Rio de Janeiro de 12 de setembro de 1829 endereçada a Toulouse e transportada em mãos até as Ilhas Anglo-Normandas (Jersey ou Guernesey), sem passar pelo correio inglês. Recebeu uma taxa de reembolso de 6 pence (por 30g) e foi enviada a Saint-Malo, que é um porto de entrada na França das malas de correio dessas ilhas. Marca de entrada em negro “GRANDE BRETAGNE / PAR ST.MALO” (Salles T1 fig. 382, pg. 101), indicando que a carta foi considerada como de procedência inglesa e o carimbo datador circular (Salles T1 fig. 80, pg. 21) de 1º de dezembro de 1829. Despachada a Toulouse, onde chegou em 8 de dezembro de 1829, recebeu a taxa de 32 décimos de franco a pagar pelo destinatário (dois portes para as cartas de 10 a 15g para a distância de 750km - um porte é composto de 6 décimos [carta vinda da Inglaterra] acrescido de 10 décimos pelo trajeto de Saint- Malo a Toulouse) segundo a tarifa de 1828. (Col. KWL - Fig. nº 3)

Fig. 3 – Do Rio de Janeiro a Toulouse via Guernesey e Saint-Malo.

1830 - Carta do Rio de Janeiro de 27 de dezembro de 1830 endereçada a Bâle (Suissa) e transportada em mãos até as Ilhas Anglo-Normandas (Jersey ou Guernesey), sem passar pelo correio inglês. Recebe uma taxa de reembolso de 6 pence (por30g) e é enviada a Cherbourg, que é um porto de entrada na França das malas de correio dessas ilhas. Marca de entrada em negro “GRANDE BRETAGNE / PAR CHERBOURG” (Salles T1 fig. 362, pg. 98), indicando que a carta foi considerada como de procedência inglesa e o carimbo datador circular (Salles T1 fig. 80, pg. 21) de 8 de fevereiro de 1831. Nota-se também a marca A.T.F. (Angleterre Transit France - Van der Linden fig. 231A) . Enviada a Bâle onde recebe a taxa de 26 décimos de franco suiço a pagar pelo destinatário. (Col. KWL - Fig. nº 4).

Fig. 4 – Do Rio de Janeiro a Bâle via Guernesey e Cherbourg

Apesar disso as cartas continuavam a serem escamoteadas do pagamento das altas taxas de correio como demonstrado no exemplo seguinte, onde se observa a chegada a Guernesey por portador e que é encaminhada da mesma forma a Granville, onde foi finalmente postada de forma regular. Dessa forma o destinatário pagou apenas 4 décimos pela franquia.


1824 - Carta do Rio de Janeiro de 17 de outubro de 1824 endereçada a Honfleur. Transportada por portador pela via de Guernesey (navio inglês “Le Pélican”) conforme o seu texto, foi postada em Granville onde teve aplicada a marca de porte devido “48 GRANVILLE”. Tarifa de 4 décimos de franco a pagar pelo destinatário (trajeto de Granville a Honfleur - Lei de 24 de abril de 1806). (Col. KWL - Fig. nº 5).

Fig, 5 – Do Rio de Janeiro a Honfleur via Guernesey e Granville

Resumindo, existem de fato três possibilidades de encaminhamento para as cartas vindas do Brasil e com passagem pelas Ilhas Anglo-Normandas:

a) São consideradas como cartas coloniais e recebem a marca “COLONIES PAR...” (“PAYS D”OUTREMER PAR...” a partir de agosto de 1831.

b) São consideradas como cartas inglesas e recebem a marca “GRANDE BRETAGNE / PAR...”.

c) São colocadas diretamente no correio francês por um portador.


2 - Segundo período (1833-1836):


Sob o regime da convenção França Inglaterra de 1833 As correspondências procedentes das Ilhas Anglo-Normandas continuam a ser tratadas pela França como vindas das colônias por via dos navios de comércio ou como vindas da Inglaterra. No primeiro caso elas receberiam a marca “PAYS D”OUTREMER PAR ...” e

seriam taxadas como cartas da via de comércio, recebendo na agência do porto de desembarque a taxa de 1 décimo pela via de mar acrescida da tarifa referente ao trajeto interno até o destino final (segundo a tarifa de 1828). Na segunda hipótese as cartas recebiam a marca de entrada “GRANDE BRETAGNE / PAR...” e pagavam 6 décimos acrescidos da tarifa interna francesa até o destino. Uma carta desse tipo é descrita a seguir:


1833 - Carta do Rio de Janeiro de 1833 endereçada a Le Havre e reexpedida à Bâle (Suissa). Transportada em mãos até as Ilhas Anglo-Normandas (Jersey ou Guernesey) sem passar pelo correio inglês. Recebeu uma taxa de reembolso de 6 pence (por 30g) e foi enviada a Saint-Malo onde teve aplicada a marca de entrada em negro “GRANDE BRETAGNE / PAR SAINT-MALO” e o carimbo datador circular de 22 de julho de 1833. A marca de entrada significa que a carta foi considerada como de origem inglesa. Tarifa francesa de 17 décimos pelo trajeto interno (entre Saint-Malo e Le Havre) somado à taxa das cartas vindas da Inglaterra. Enviada a Bâle, a carta recebeu a taxa de 34 décimos de franco suiço a pagar pelo destinatário. (Carta reproduzida no artigo de Martin

F. Stempien Jr, “International Mail 1699-1869” publicado pela “The Philatelic Foundation” - Seminar Series Textbook No 2 - “Philatélie à la Française”, pg 6). Fig nº 6.

Fig. 6 – Do Rio de janeiro a Bâle via Guernesey e Saint-Malo.

3 - Terceiro período (1836-1843):


A convenção França-Inglaterra de 1836 não faz menção às cartas endereçadas à França por via das ilhas anglo-normandas e dessa forma ainda não são consideradas como correspondências provenientes da Inglaterra. Essas cartas continuam a entrar na França por meio de navios de comércio, utilizando os portos de Saint- Malo, Cherbourg e Granville.


Até o momento não temos referências de cartas provenientes do Brasil entre 1836 e 1843 utilizando a via das ilhas anglo-normandas.

Bibliografia:

ALEXANDRE, J. P. , BARBEY C. , BRUN J. F. , DESARNAUD, G. , Les

tarifs postaux français 1627-1969, Ed. Brun & Fils, 1989, Paris.

BERGIER, Joseph, POTHION, Vincent, France, Poste Maritime Préphilatélique, in Revue française de marcophilie et d’histoire postale, supplément au no 263, Paris, 1990.

CHAUVET, Michelle, Les relations de la France avec l’Angleterre de 1670 à 1849, Ed. Brun & Fils, 2001, Paris.

SALLES, Raymond, La Poste Maritime Française, Tome I, published by James Bendon, Limassol, 1992 et 1993.

GIBBONS, Stanley, Channel Islands Postal History, Catalogue, Ed. Stanley Gibbons Publications Ltd, London and Ringwood, 1991.

STEMPIEN JR. , Martin F. ,

International Mail, 1699-1869, in The Philatelic Foundation Seminar Series - Textbook no 2 - Philatélie à la Française edited by John E. Lievsay, 1991, pp. 1- 13.


Artigo gentilmente cedido pelo autor.

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