A primeira viagem do correio consular francês do Brasil | Klerman Lopes

Dezembro 2004


Introdução


A aliança política e militar es- tratégica com Portugal fez com que, desde o início do século XIX, o Cor- reio Inglês exercesse virtual mono- pólio sobre as ligações postais entre a Europa e a América do Sul, com linha regular de Paquetes-Correio (Packet-Letters). A crescente deman- da por serviços postais por parte dos comerciantes franceses estabelecidos em solo brasileiro fez com que, em 16 de julho de 1840, o Imperador da- quele País decretasse o estabeleci- mento de linhas de Paquetes a Va- por para as Américas, uma das quais em direção ao Brasil. Assim é que, experimentalmente, a fragata fran- cesa “Gomer” realizou nos anos de 1842 e 1843 duas viagens ao Brasil e, em 1844, os governos daqueles países assinaram uma convenção postal, que previa uma linha regular de paquetes ligando os portos do Rio de Janeiro e Le Havre. Infelizmen- te, a instalação daquela linha nunca foi feita, mantendo-se irregular transporte de correspondência atra- vés de navios mercantes franceses que aqui aportavam. A alternativa continuava sendo a da utilização dos sempre confiáveis serviços ingleses, sendo a correspondência francesa despachada de Londres ao seu des- tino, entrando preferencialmente pelo porto de Calais. A crescente im- portância das relações comerciais Brasil-França fez com que tentati- vas privadas de implantação de li- nha regular de paquetes fossem efetuadas pelas companhias “Arnaud, Touache et Fréres” de Marselha, em 1853/54; “Franco Américaine” de Lyon, em 1856 e, no- vamente, “Arnaud, Touache et Fréres” em 1856/57. Por não terem alcançado os resultados pretendidos, suspende- ram suas operações. Sòmente em fe- vereiro de 1860 uma outra companhia, a “Services Maritimes des Méssageries Impériales” manifestou ao Governo francês a firme intenção de retomar as operações, propondo instalação de li- nha mensal de paquetes a vapor ser- vindo, a partir de Bordeaux, aos por- tos de Lisboa, Goréia, Pernambuco, Bahia, Rio de Janeiro, Montevideo e Buenos Aires.


A Convenção Postal de 1860


Com a certeza do estabelecimento de uma linha regular de paquetes, uma Convenção Postal entre o Brasil e a França foi assinada em Paris em 16 de Abril de 1860 e no Rio de Janeiro em 7 de julho de 1860, tendo o seu regulamento definitivo sido assinado no Rio de Janeiro em 7 de julho de 1860 e em Paris em 16 de agosto de 1860, respectivamente. Para que todas as formalidades operacionais fossem definitivamente implantadas, fixou- se em 1º de outubro de 1860 a data de vigência da convenção. No Brasil foram estabelecidas Agências Postais Consulares no Rio de Janeiro, na Bahia e em Pernambuco. Aos seus chanceleres foi atribuida a função de “Agentes do Correio Francês em terra”, sendo eles responsàveis pela recepção e envio das cartas.


Os navios da “Linha do Brasil”


Para a assim denominada “Linha do Brasil” a “Compagnie des Méssageries Impériales” fez construir nos estaleiros franceses de La Ciotat e La Seyne quatro navios a vapor de 1200 toneladas cada, movidos a pás e com potência nominal de 460 HP e capacidade de transporte de cerca de 170 passageiros. Foram denominados “Guienne”, “Navarre”, Estramadure” e Béarn”. O primeiro paquete a ficar pronto, o “Guienne” (Figura 1), foi lançado ao mar em La Ciotat, em 15 de outubro de 1859, . Tendo em vista a certeza do acordo, a companhia começou a operar antecipadamente a sua Linha do Brasil, com a partida do navio “Guienne” do porto de Bordeaux em 24 de maio de 1860, aqui chegando em junho do mesmo ano. Aquele navio, em sua viagem de retorno à França, partiu do porto do Rio de Janeiro em 25 de junho de 1860.


Fig. 1 - Maquete do Guienne - Câmara de Comércio de Marselha

Os carimbos ditos “consulares”:


Fig. 2 - Carimbos da Agências Consulares

A regulamentação definitiva da convenção só ocorreu em outubro, e para as quatro primeiras viagens da linha, nos meses de junho, julho, agosto e setembro, foi criado um carimbo datador octogonal, contendo na sua parte superior a palavra “Brésil”, nas laterais os numerais “1” para a Agência Consular do Rio de Janeiro, “2” para a da Bahia e “3” para a de Pernambuco. Na sua parte inferior, continha um pequeno florão. (Figura 2).


Estudo das cartas “consulares”

Nos trabalhos de Raymond Salles não foi citada qualquer carta da viagem inaugural do paquete “Guienne”, portando carimbo “consular”.

Segundo pesquisa recentemente publicada pelo ilustre filatelista Sr. Paulo Comelli, até o presente são conhecidas apenas 12 cartas portando os carimbos ditos “consulares”, assim discriminadas:

  • 1ª Viagem - Paquete “Guienne”, retornando do Rio de Janeiro em 25 de junho de 1860: sòmente uma carta da Bahia com carimbo consular (azul) de

  • 28 de junho.

  • 2ª Viagem - Paquete “Navarre”, retornando do Rio de Janeiro em 25 de julho de 1860: três cartas do Rio de Janeiro e duas cartas da Bahia (carimbos de 29 de julho).

  • 3ªViagem - Paquete “Estramadure”, retornando do Rio de Janeiro em 25 de agosto de 1860: uma carta do Rio de Janeiro e duas cartas da Bahia (carimbos de 29 de agosto).

  • 4ª Viagem - Paquete “Guienne”, retornando do Rio de Janeiro em 25 de setembro de 1860: uma carta do Rio de Janeiro e duas da Bahia (carimbos de 29 de setembro).

Portanto, cinco cartas foram enviadas do Rio de Janeiro e sete da Bahia. Até a presente data não há referência a cartas procedentes de Pernambuco em nenhuma das quatro viagens.


Quanto ao destino final dessas correspondências, o mesmo levantamento informa que seis delas foram enviadas a Portugal (uma para os Açores e cinco para o Porto), cinco para a França e uma para a Itália.

O eventual leitor deste artigo terá razão em ficar surpreso com esse balanço, pois é incrível que tão poucas peças tenham sobrevivido até os nossos dias. O início dessa ligação postal marítima era longamente aguardado, somado ao fato de tratar-se de correspondência destinada a países europeus, cujas boas condições climáticas e a tradição na guarda e conservação de documentos são notórias.

Além da falta absoluta de correspondência conhecida originada em Pernambuco, é também intrigante ao estudioso constatar um maior volume de correspondência oriundo da Bahia em relação àquele proveniente do Rio de Janeiro, sede da Corte Imperial.


A primeira viagem do “Guienne”

Como já mencionado, é desconhecida a ocorrência de cartas com o carimbo consular do Rio de Janeiro e transportadas na primeira viagem de retorno da “Cie. des Méssageries Impériales” pelo paquete “Guienne”, ocorrida em 25 de junho de 1860. Cartas daquela viagem com outras marcas postais não foram reportadas até hoje.

O estudo das três cartas de minha coleção, a seguir apresentadas, visa ilustrar o tema em apreço e propor alternativas para essa constatação.


Nº 1 - Carta escrita no Rio de Janeiro em 20 de junho de 1860 e endereçada a Gênova, na Itália. Na frente, carimbo octogonal “Postes Françaises Guienne” (Salles Tomo 3, pg. 17, Figura nº 1007) aplicado à bordo do navio “Guienne” em 25 de junho de 1860. No verso, carimbo circular de entrada em Bordeaux em 20 de julho, circular de passagem em Paris em 22 de julho e retangular vermelho de chegada a Gênova em 24 de julho de 1860. Anotação manuscrita de 16gr / 2º porte e taxa de 20 décimos a ser paga pelo destinatário. (Figura 1)


Fig. 1 - Carta para Gênova - Porte duplo para a Itália - Carimbo “Postes Françaises Guienne” de 25 de junho de 1860. Primeira viagem sob a Convenção Brasil-França

Nº 2 - Carta escrita no Rio de Janeiro em 25 de junho de 1860 e endereçada a Gênova, na Itália. Na frente, carimbo octogonal “Postes Françaises Guienne” (Salles Tomo 3, pg. 17, Figura nº 1007) aplicado a bordo do navio “Guienne” em 25 de junho de 1860. Menção manuscrita “Voie de Bordeaux”. No verso, carimbo circular de passagem em Paris em 22 de julho e retangular vermelho de chegada a Gênova em 24 de julho de 1860. Taxa de 10 décimos (1º porte) a ser paga pelo destinatário. (Figura 2)


Fig. 2 - Carta para Gênova - Porte simples para a Itália - Carimbo “Postes Françaises Guienne” de 25 de junho de 1860. Primeira viagem sob a Convenção Brasil-França

Nº 3 - Carta escrita no Rio de Janeiro em 25 de junho de 1860 e endereçada a Bordeaux, na França. Na frente, carimbo octogonal “Postes Françaises Guienne” (Salles Tomo 3, pg. 17, Figura nº 1007) aplicado a bordo do navio “Guienne” em 25 de junho de 1860. No verso, carimbo circular de chegada a Bordeaux em 20 de julho de 1860. Taxa de 8 décimos (1º porte) a ser paga pelo destinatário. (Figura 3)


Fig. 3 - Carta para Bordeaux - Porte simples para a França - Carimbo “Postes Françaises Guienne” de 25 de junho de 1860. Primeira viagem sob a Convenção Brasil-França

OBS: Deve-se notar que as três cartas apresentam carimbos com o datador invertido.


Comentários:

Segundo Raymond Salles, os carim- bos “Postes Françaises ...” eram en- contrados a bordo de todos os navios da linha do Brasil, sendo raramente usados em cartas postadas na França com selos portando a obliteração “Ân- cora” e, em algumas poucas peças, na frente ou no verso de cartas sem selos e taxadas, provenientes dos paises da Bacia do Prata e do Sénegal.. No pe- ríodo das Agencias Consulares em 1860, seu uso em cartas provenientes do Brasil é referido expressamente no verso em viagens do paquete “Navarre”. Em apenas 1860 o carim- bo é também citado como constando na frente de cartas transportadas pelo paquete “Guienne”, sem mencionar sua origem.

Instigante é a ausência de car- tas portando o carimbo consular fran- cês do Rio de Janeiro “Brésil 1” na- quela primeira viagem.

Tratando-se de viagem inaugu- ral da “Messageries Impériales” por longo tempo aguardada e cuja divul- gação certamente foi intensa, era de se esperar que um grande número de cartas fossem confiadas ao “Guienne”. Será que o carimbo não estava dispo- nível e foi usado o do navio como substituto? Sendo assim, como expli- car o carimbo consular da Bahia (úni- co em azul), lá aplicado em carta da viagem inaugural. A autenticidade dessa carta não tem sido posta em dúvida, portanto o carimbo consular estava de fato disponível na Bahia. Na época aquele tipo de carimbo ainda não era produzido no Brasil e não nos parece implausível que apenas o ca- rimbo da Bahia tivesse sido enviado da França na primeira viagem da “Méssageries”.

Como já explicado, embora a “Linha do Brasil” já estivesse operan- do desde 24 de maio de 1860, a data inicial de vigência da Convenção Bra- sil-França foi postergada para 1º de outubro de 1860, para que se ajustas- sem todas as formalidades burocráti- cas. Portanto é natural, nos quatro meses que a antecederam, a ocorrên- cia de procedimentos e interpretações não ortodoxos, mais tarde corrigidos.

Teriam as correspondências aqui apresentadas passado pelo con- sulado francês ou foram entregues pelos remetentes diretamente, como pa- rece, aos cuidados do Agente Postal embarcado no navio “Guienne”?

Este estudo tenta esclarecer parcialmente o mistério da ausência de cartas enviadas através do “Guienne” em 25 de junho de 1860, na sua primeira viagem de retorno à França e desconhecidas até então. Embora, a meu conhecimento sejam as únicas cartas reportadas até a presente data, é provável que, com o passar do tempo, outras aparecerão.

Finalmente, espero que este trabalho desperte a atenção dos estudiosos para que o enriqueçam com seus acréscimos, críticas, correções e su- gestões.

PS: O “Guienne” foi remodelado em La Ciotat em 1872, recebendo propulsão a hélice e sendo rebatizado com o nome de “Gambie”. Naufragou nas costas da Bahia em 1º de agosto de 1873.


Referências bibliográficas:

SALLES, R.

La Poste Maritime Française - Tome III - James Bendon, 1992 - Chipre

TRISTANT, H.

Les Premiers Paquebots à Vapeur Transatlantiques - Revue Française de Marcophilie et d’Histoire Postale, supplement nº 238, 1984 - Paris

COMELLI, P.

As Agencias Consulares Francesas no Brasil - A Filatelia Portuguesa nº 105, pgs. 17-20 - Abril 2002 - Porto.

DAMIAN, P.J., LOPES, K.W.,

Caracteristicas das correspondências do Brasil para a França no século XIX - Tomo I - Ao Livro Técnico, 2003, Rio de Janeiro.


Trabalho dedicado ao inesquecível amigo Philippe Jean Damian


Paquete “Guienne” - Gravura

Artigo gentilmente cedido pelo autor.

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