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O HOLOCAUSTO DE KALAVRYTA

Antonio Eleftheriou

Estava navegando, como de costume, pelo ebay a procura de algum item interessante, quando deparei com um envelope que me chamou a atenção pelos selos da época da II Guerra. Dei um zoom e verifiquei o carimbo bem batido:  ΤΑΧ. ΤΑΜΙΕΥΤΗΡΙΟΝ – ΚΑΛΑΒΡΥΤΩΝ / 11 ΧΙΙ 43 (Caixa de Correio – Kalavryta) Olhando a data pensei, ”não pode ser”, fui consultar o “pai dos burros moderno” – a Wikipédia  e tive uma grata surpresa.

Vamos voltar no tempo, estamos na Grécia em 1943, a máquina de guerra nazista alcançou a sua máxima expansão e agora está começando a retroceder. Os aliados tomaram o norte da África e em julho desembarcaram na Sicília enquanto os russos começaram a sua contra ofensiva com a vitoria em Kursk . Em 8 de setembro o EIXO recebe um duro golpe. Após a divulgação do armistício com o governo italiano, a península Italiana foi invadida. A Alemanha respondeu desarmando as forças italianas e tomando o controle militar das áreas até então controladas pela Itália.Foi isto exatamente que aconteceu na Grécia. Porém além da substituição das forças italianas por alemãs, os nazistas redobraram os cuidados, pois desconfiavam que após o desembarque dos aliados na Itália se seguiria um desembarque no Peloponeso. Uma ordem de Hitler de 06/10/43 enviada ao general Maximilian Von Weichs ordenava que em caso de desembarque aliado na Grécia as tropas nazistas deveriam destruir tudo ao sul da linha Kerkira-Metsovo-Olimpo.Porém antes de conseguirem isto as tropas de ocupação deveriam se livrar da Resistência Grega, atacando sem trégua não só os guerrilheiros, mas as suas bases, as aldeias e cidades aonde buscavam refúgio, mantimentos e apoio.
Dentro desta linha de raciocínio foi desenhada a “Operação Kalavryta” uma vez que as forças alemãs calculavam que na região desta cidade se encontravam cerca de 5.000 guerrilheiros, a maior força da Resistência em todo o Peloponeso.Isto foi confirmado pelos nazistas em 20/10/43 quando aconteceu a batalha de Kerpinis. Nesta batalha foi utilizado um batalhão inteiro contra os guerrilheiros e os alemães foram massacrados. A Companhia de Granadeiros foi aniquilada até quase o último homem. Sobreviveram 72 alemães que foram levados como prisioneiros pelos guerrilheiros para perto de Kalavryta.
A ordem para a “Operação Kalavryta” (Unternehmen Kalavryta) foi dada por Hitler ao Marechal Wilhelm Keitel comandante da OKW (OberKommando Wehrmacht = Comando Supremo das Forças Armadas) em 29/10/43. A execução da operação foi dada ao comandante da Divisão 117, o major-general Karl von Le Suire, que após concentrar as forças necessárias expediu em 25/11/43 a ordem nº 1296 para as suas tropas.
A “Operação Kalavryta começou em 04/12/43. As forças alemãs partiram de Patra, Tripoli e da região de Corinto. Em seu rastro espalharam morte e destruição queimando vilas e mosteiros e executando civis.
Na quinta-feira, 09/12/43, as tropas alemãs entraram em Kalavryta. Uma comissão de moradores proeminentes foi receber o inimigo garantindo que o povo era pacífico e ordeiro. O comandante alemão se dirigiu a população acalmando-a e garantindo que nada aconteceria. Pediu para que entregassem, se tivessem, armas e munições. Ordenou toque de recolher a partir das 16:00 e que ninguém deixasse a cidade. Pediu também uma lista das famílias que tinham membros na Resistência. O povo acreditou e na esperança de salvar a cidade, entregou a relação pedida.
“Existem mais partizans” foi a resposta do comandante que achou a relação pequena e completou “Vocês todos são partizans!”.  As consequências foram imediatas.
Os alemães foram até o hotel “Xelmos” que os rebeldes tinham usado como hospital da Resistência e o queimaram. Em seguida se dirigiram as casas das famílias que tinham membros na Resistência e as destruíram uma a uma. Esta manobra deu a impressão que os “metódicos e lógicos” alemães estavam satisfeitos por punir somente aqueles que estavam oficialmente engajados na Resistência. Então, o resto da cidade não deveria ter que se preocupar com nada e a vida poderia seguir sem problemas.
Na realidade, é claro, foi o prólogo da destruição.
Homenagem a Resistência Nacional 1941-1944 – Kalavryta
Segunda-feira, 13/12/43. Não tinha amanhecido ainda quando foi ouvido a bater de maneira frenética o sino da metrópole. Logo chegou a ordem de se reunir toda a população na escola primária. Lá os nazistas separaram as mulheres e crianças dos homens.
Perto das 9:00 eles retiraram os homens com idade acima de 14 anos e os levaram para um campo  distante cerca de 10 minutos e os cercaram com metralhadoras.  Ao mesmo tempo, outras tropas alemãs começaram os saques e a destruição da cidade. Ao meio-dia, um sinalizador lançado da cidade deu o sinal. As armas começaram a disparar e os homens de Kalavryta a cair mortos um após o outro. Quantos foram mortos? De acordo com uma versão 1.436, de acordo com outra mais de 1.000. Conseguiram se salvar apenas 13 pessoas que ficaram soterradas pelos seus vizinhos e foram dadas como mortas pelos nazistas. As mulheres e crianças após quebrarem portas e janelas conseguiram escapar da escola em chamas enquanto a cidade toda era incendiada, para encontrarem todos os seus familiares massacrados.
Memorial para as vítimas do Holocausto de Kalavryta
Em represália a este a massacre o grupo ELAS da  Resistência (Ελληνικός Λαϊκός Απελευθερωτικός Στρατός – Exercito Popular Grego de Libertação), executou os 72 prisioneiros nazistas entre 13 e 15/12.
Relembrei toda esta historia vendo este envelope postado no sábado 11/12/43 somente 2 dias antes do massacre e o último dia de funcionamento do correio. com as tropas alemãs na cidade mas ninguém desconfiando do que estaria por vir.
É a filatelia e a historia andando sempre juntas. Cabe a nós decifrá-la, mas para isto é preciso estudar e muito os temas que queremos colecionar.
Em outras matérias vou tratar da Resistência Grega que era uma das mais ativas e atuantes de toda a Europa. As tropas de ocupação com mais de 300.000 homens foram incansavelmente combatidas pela Resistência e em represália 49.188 gregos foram executados pelos alemães, italianos e búlgaros. A Resistência era composta de vários grupos: EAM, ELAS, EDES, EKKA e tem uma interessante história filatélica.

Bibliografia:

http://www2.rizospastis.gr/story.do?id=3148236&publDate=11/12/2005
http://en.wikipedia.org/wiki/117th_Jäger_Division
http://el.wikipedia.org/wiki/Σφαγή_των_Καλαβρύτων