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Raridades na Filatelia!

Crônica sobre a pesquisa filatélica.   

Raridades na filatelia

Denis Forte
 
Qual o filatelista que não sonhou em encontrar uma raridade em um álbum de trocas em seu meio de colecionador? De fato, a filatelia se faz com grandes estórias, como a do escoteiro de 12 anos da Guiana que encontrou em um baú de cartas de seu tio, em 1873, um selo ( o um cent magenta, figura 1) que não estava referenciado nos catálogos daquela época. A falta de conhecimento e referência o fez repassá-lo por alguns Shillings a um comerciante local, que por sua vez o repassaram até que o famoso Philippe la Rénotière von Ferrary o comprasse pela vultuosa soma de US$ 750,00 nos anos de 1880. Embora raridade e valor de mercado nem sempre andem juntos, ainda se trata de bom indicador. Em 1980 este selo foi negociado em leilão internacional pelo valor de US$ 935.000,00.

   
Fig. 1
 
E qual a relação entre este selo e o selo amarelo do lado (Treskilling Amarelo, figura 2)? Bom, ambos são famosos por serem erros de cor, mas também por ter pertencido à mesma coleção de Ferrari… Ah.. Não esquecendo também de ter batido recorde de valor de mercado, pois em 1996 foi negociado por US$ 2.060.000,00 e recentemente em venda privada foi novamente vendido, imagina-se por cifras recorde. A razão de sua raridade vem inicialmente de seu erro de cor, pois o selo original é da cor verde-azulado, enquanto o parceiro de 8 Skillings era de cora alaranjada. Supõe-se que tenha havido um erro de clichê na hora da fabricação, que ocasionou este erro, podendo ser possível a existência de outros (a folha continha 100 selos, e não se sabe ao certo quantos foram impressos e quantos sobreviveram ao tempo).


Fig.2

Estes mitos é que movem o imaginário de qualquer colecionador, inclusive o filatelista. Mas diversas vezes no passado eu ouvi de experientes colecionadores, como o Horácio Matos* (grande figura, que aqui homenageio pelo conhecimento notável em suas coleções e perfil amigo), que por anos procuraram determinados tipos de selo e era ilusão pensar que justo eu seria o eu seria o afortunado a encontrá-los, pois a época de ajuntadores ingênuos e falta de informação já havia passado. O que seria um motivo de desânimo inicial,transformou-se para mim em uma agradável desafio.
Na época consegui encontrar determinados selos bastante difíceis e raros, dadas as devidas proporções. Após aprender a identificar os selos falsos da Madrugada, me pus a caçá-los por estoques antigos em casas filatélicas, e em coleções e lotes. Após separar meia dúzia de candidatos, levei ao Horácio, que boquiaberto me respondeu em seu sotaque português: “ menino, tens muita sorte” . Achei não um, mas dois falsos e fiquei extremamente feliz por ter rompido o paradigma. Quem sabe não foi este parte do aprendizado maior que levo hoje profissionalmente como professor pesquisador em minha área?
Mas novamente, incrédulos dirão que raios não caem duas vezes no mesmo lugar (que o digam os São Paulinos do Morumbi!) e que novamente, com o passar do tempo já se estudou muito e não se tem espaço para encontrar raridades. Novamente, ledo engano….
Que tal começar por um país de alta cultura e poder aquisitivo, cuja tradição filatélica remonta aos primeiros anos da criação do selo? A Itália, em seu início, era constituída por estados, e imprimia seus selos localmente. A Toscana, uma das mais belas regiões italianas, emitiu o belo selo de um Leão com sua coroa, símbolos locais. As séries do início da formação da Itália são extremamente estudadas, por serem bonitas e terem execução diferenciada. E não é que recentemente encontraram um erro que ainda não havia sido catalogado? Na figura 3, pode-se perceber o selo com forte carimbo, em posição normal e cor normal. Só que… No local onde o valor deveria estar horizontalmente para cima, ele está para baixo! É verdade que é necessário um certo esforço para notá-lo, mas percebe-se que de fato este erro existe comprovadamente. Uma casa de leilões internacional está divulgando sua estória, mostrando que ainda é possível encontrar raridades deste quilate, na filatelia.


Fig.3

E no Brasil? Se servir de exemplo, há alguns anos após ter lido um excepcional livro sobre os Inclinados, me chamaram a atenção alguns dos selos destacados como dupla impressão e erros. Intrigado, fui atrás de evidências (selos) para analisar se eram ocasionais ou repetitivos. Mesmo se tratando da segunda emissão brasileira e de uma das primeiras do mundo (1844), não lhe deram o devido destaque internacional nos estudos, diferentemente da famosíssima e exploradíssima primeira série de Olhos de Boi. Bom para mim!
Na figura 4 abaixo, destaco o selo de 180 Réis inclinado que comprei em leilão internacional alguns anos atrás. Já não era pouco tratar-se de um dos selos mais difíceis do Brasil, ainda mais sem carimbo, mas encontrá-lo com diversas reincisões formando uma imagem dupla, era uma loteria.


180 Inclinado “diferente”

Após rigoroso exame, me pus a procurar outras peças, onde encontrei algumas de maior destaque do que outras, que culminaram além de minha coleção, em uma monografia, despretensiosa academicamente, sobre o tema, pois afinal devemos contribuir com o conhecimento geral quando possível.
A literatura filatélica brasileira é bastante frágil quando comparada a países de primeiro mundo cultural, e portanto existem ainda vários campos pouco explorados. Se a série Dom Pedro já foi bastante estudada, o mesmo não se pode dizer dos olhos de cabra e de gato, dos pequenos Dom Pedro, dos Cruzeiros, dos Jornais… E mesmo onde se avançou existe espaço, como na Madrugada ou nos telégrafos.
Ajuntadores, colecionadores e futuros pesquisadores, mãos à obra. Quem sabe o próximo artigo não vem de uma descoberta feita por vocês?

Referências
Feldman, D. Site. Disponível em http://www.davidfeldman.com/l/1/m/14/p/88
Taveira, W.G. Brasil 1844-1846: Slanted Numerals Handbook. Selos do Império do Brasil 2a Estampa. Editora o lutador, 2001.
Wikipedia. Disponivel em http://en.wikipedia.org/wiki/Treskilling_Yellow
Wikipedia. Disponivel em http://en.wikipedia.org/wiki/British_Guiana_1c_magenta

Denis Forte é Mestre e Doutor em Finanças, Professor do Mackenzie e filatelista desde 1983. Contato em denisfortebr@yahoo.com.br para enviar scans de variedades do inclinado (1200 bits).

*Sr. Horacio Matos da Silva foi presidente da SPP no bienio 1992/93.