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Centenário da Instalação do Telégrafo Elétrico no Brasil

Centenário da Instalação do Telégrafo Elétrico no Brasil, selos postais, estudo filatélico.

Centenário da Instalação do Telégrafo Elétrico no Brasil

FÁBIO SERRA FLOSI
(ABRAJOF, AFSC, FEFIBRA, SPP)

Matéria publicada no boletim da SPP n.º 206 – dezembro/2009

Os selos postais comemorativos do Brasil (e seus correspondentes carimbos postais comemorativos), sobretudo aqueles emitidos há mais de cinqüenta anos, permitem que se façam interessantes estudos filatélicos.

Um exemplo típico é a série de três selos (RHM C-278, C-279 e C-280) emitida em 11 de maio de 1952 para comemorar o Centenário da Instalação do Telégrafo Elétrico em nosso país.

Neste trabalho serão mostradas, em termos históricos, a origem do telégrafo elétrico, a sua instalação no Brasil e as pessoas que trabalharam para que esse evento ocorresse. Em termos filatélicos, serão apresentados selos (variedades), carimbos comemorativos e envelopes circulados, todos relacionados com essa efeméride.

1 – O telégrafo elétrico

A invenção da telegrafia elétrica e sua rápida expansão pelo mundo foi um dos maiores avanços tecnológicos ocorridos no século XIX.

O americano Samuel Finley Breese Morse (1791-1872) desenvolveu um sistema onde, a cada letra do alfabeto (de A até Z) e a cada algarismo (de 0 até 9), ele atribuiu um conjunto de símbolos constituído de pontos (—) e traços (-). Esse sistema ficou conhecido mundialmente como código Morse e até hoje é utilizado em comunicações de emergência, quando os meios mais sofisticados falham (naves espaciais tripuladas, aviação, marinha, etc.).

A primeira mensagem transmitida através de tal código ocorreu às 08h45min do dia 24 de maio de 1844 (figura 1).  Essa foi a primeira aplicação comercial da tecnologia da Eletricidade para se transmitir mensagens a longas distâncias. Morse enviou para seu assistente a seguinte frase extraída da bíblia: “What hath god wrought?”, que significa: “O que Deus fez?”.

Devido a sua maior eficiência, a invenção de Samuel Morse foi, aos poucos, substituindo o telégrafo semafórico (ou telégrafo óptico) inventado em 1793 pelo francês Claude Chappe (1763-1805). Esse tipo de telégrafo, por fazer uso de sinais visuais (símbolos, bandeiras coloridas, etc.), dependia em muito das condições atmosféricas (por exemplo, a não existência de nuvens entre o transmissor e o receptor), e não podia ser operado durante a noite.


Figura 1 – FDC com selo comemorativo do centenário do telégrado de Morse (Scott
#924). O desenho no lado esquerdo ilustra a primeira mensagem enviada da cidade
de Washington (capital dos EUA) para Baltimore (distância 64 km), Entre as duas
cidades, sustentada por postes de madeira, está a linha telegráfica (par de fios
condutores de cobre).

2 – A implantação no Brasil

Até o início da década de 1850, no Brasil utilizavam-se telégrafos semafóricos. Estações telegráficas eram construídas em torres, perto dos portos, em pontos estratégicos, de onde se podiam avistar as embarcações fora da barra.

Com o uso de binóculos de grande alcance os operadores ficavam sabendo as classes, as designações e as nações dos navios que estavam chegando. Esse era o meio de comunicação entre as embarcações e os portos. Através de estações repetidoras, situadas a cada 10 km,  tais informações eram enviadas para a sua majestade o Imperador, para os Ministros, os Correios, etc.

A implantação do telégrafo elétrico no Brasil começou a ocorrer no início da década de 1850, época do Império sob a administração de D. Pedro II. Nesse processo foi primordial o trabalho realizado por três ilustres personagens:

a)     Polidoro da Fonseca Quintanilha Jordão (1802-1879), “Visconde de Santa Tereza”, nasceu no Rio de Janeiro. General e Ministro da Pasta da Guerra, teve importante participação no conflito com o Paraguai.

b)     Guilherme Schüch de Capanema (1824-1909), “Barão de Capanema”, nasceu em Mariana, Minas Gerais. Doutor em Matemática e Física pela Escola Militar do Rio de Janeiro. Em 1873 desenvolveu um avançado e econômico isolador elétrico para uso em linhas telegráficas.

c)     Euzébio de Queirós Coutinho Mattoso Câmara (1812-1868) nasceu em São Paulo de Luanda, Angola. Formou-se na Faculdade de Direito de Olinda. Foi Deputado no Rio de Janeiro, Senador e Ministro da Justiça.

As primeiras tentativas datam de 1851. Elas tiveram o incentivo de Eusébio de Queiroz (Ministro da Justiça, naquela época), além do apoio de um personagem central no desenvolvimento da telegrafia elétrica em nosso país, o Dr. Guilherme S. de Capanema.

Dizem os historiadores que o Ministro da Justiça via o uso da telegrafia elétrica como um poderoso instrumento auxiliar no cumprimento da lei de sua autoria (Lei Eusébio de Queirós, de 1850), a qual proibia o tráfico de escravos no Brasil. Instalando linhas telegráficas pela costa brasileira, ele poderia policiar o movimento de navios e reprimir o desembarque de negros africanos.

Polidoro da Fonseca (Comandante do Corpo de Permanentes da Polícia, naquela época) obteve, por empréstimo, dois aparelhos do tipo “Breguet”, que eram utilizados para estudos de Eletricidade Aplicada pelo professor Dr. Guilherme S. de Capanema no Gabinete de Física da Escola Central, no Rio de Janeiro.

Um dos aparelhos ficou sobre uma mesa em frente ao Cel. Polidoro. O outro foi levado pelo Dr. Capanema a uma sala vizinha. Os aparelhos foram interligados por fios de cobre envoltos em seda e embebidos em resina.

Segundo o relato de algumas pessoas presentes a esse histórico experimento, a mensagem transmitida teria sido: “Minha terra tem palmeiras, onde canta o sabiá”, trecho do poema do exílio de Gonçalves Dias.

3 – A primeira linha telegráfica

Entusiasmado pela experiência bem sucedia de 1851, o Ministro Eusébio de Queirós solicitou ao Dr. Capanema para que fosse instalada uma linha subterrânea experimental, interligando a Residência Imperial (na Quinta da Boa Vista) e o Quartel-General do Exército (no atual Campo de Santana), na cidade do Rio de Janeiro, numa extensão de 4,3 km.

Todo material necessário (aparelhos de telegrafia, fios de cobre, etc.) foi encomendado na Inglaterra. Durante a instalação, a passagem dos fios condutores contou com a mão de obra dos presos da Casa de Correção (atual presídio da Rua Frei Caneca).

No dia 11 de maio de 1852 foi finalmente inaugurada oficialmente a primeira linha de telégrafo elétrico no Brasil. O Imperador D. Pedro II (que estava em uma ponta da linha, na Residência Imperial) trocou vários telegramas com o Ministro Eusébio de Queirós, com o Cel. Polidoro da Fonseca e com o Dr. Capanema (que estavam na outra ponta da linha telegráfica).

Da implantação da primeira linha (em 1852) até o início da Guerra do Paraguai, a telegrafia elétrica no Brasil teve pouca expansão. Somente a partir de 1865, devido às necessidades militares do conflito, é que foi dado um impulso na construção de novas linhas telegráficas terrestres.

Em 17 de março de 1855, devido à precariedade dos serviços telegráficos, o Governo Imperial nomeou o Dr. Guilherme Schüch de Capanema (mais tarde Barão de Capanema) como Diretor da Repartição Geral dos Telégrafos (cargo que ocupou até o fim do Império em 1889), justamente com o intuito de organizar o desenvolvimento desse importante meio de comunicação à distância em nosso país (início da era das Telecomunicações).

Figura 2 – Variedade do selo RHM C-278 (com a efígie do Gen. Polidoro da Fonseca)


Figura 2a – Par horizontal com deslocamento para a
direita do picote vertical e omissão da palavra
CENTENÁRIO no lado esquerdo (não catalogada)


Figura 2b – Trica horizontal (usada) com profundo “pliê” atingindo os três selos

Figura 3 – Outras variedades (não catalogadas) dos selos do Centenário do Telégrafo


Figura 3a – RHM C-279 (com a efígie do Barão de Capanema). Par horizontal com
deslocamento para a direita do picote vertical


Figura 3b – C-280 (com a efígie do
Ministro Eusébio de Queirós).
Manchas (verde escuro) nas bordas
horizontais superior e inferior.


Tabela 1 – Selos Comemorativos do Centenário do Telégrafo Elétrico no Brasil

4 – Selos comemorativos

Em 11 de maio de 1952 foi comemorado o centenário da instalação da primeira linha de telegrafia no Brasil.

Para lembrar esse evento e homenagear os três pioneiros da implantação do telégrafo elétrico, foi lançada uma série de três selos comemorativos (RHM:    C-278, C-279 e C-280) pelo então Departamento de Correios e Telégrafos (DCT).

Variedades desses selos estão nas figuras 2 e 3. Detalhes sobre a emissão encontram-se na tabela 1. Características comuns aos três selos são apresentadas a seguir:

– Tiragem: 1.000.008 para cada valor facial, em folhas de setenta e dois exemplares (nove colunas de oito selos).
– Picote (denteação): 11 ½.  Filigrana: sem. Edital: 5 de maio de 1952.
– Data de circulação: 11 de maio de 1952. Porte: ordinário. Papel: médio.
– Impressão: off-set.

Com relação às variedades, além daquelas mencionadas na tabela 1, existem as seguintes devidamente catalogadas (ver referências [2], [3] e [4]):

I) Para o selo C-278:
a) Ponto vermelho entre o “9” e o “5” de “1952” ([3]).
b) Traço do “I” (de Centenário) até a cabeça de Polidoro ([3]).
c) Papel fino ([4]).

II) Para o selo C-280:
a) Traço no rosto, à direita ([2] e [3]).
b) Impressão no verso ([2] e [3]).
c) Pliê ([2] e [3]).

Observação: PLIÊ é uma palavra do francês e significa: plissado, dobrado. É usada para indicar o papel que sofreu uma dobra no momento da impressão do selo, devido a um problema com a máquina impressora ou com o próprio papel que se deslocou durante o processo. Desfazendo-se tal dobra nota-se que o seu interior é branco, pois não recebeu tinta.

III) Para os três selos:
a)     Nuanças de cor ([2]).

Figuras 4 – Algumas localidades aonde foi utilizado o carimbo comemorativo do Centenário do Telégrado no Brasil (itens da coleção de Antonio Carlos Fernandes).


Figura 4a – Botucatu (BTU) – ZIONI # 317D


Figura 4b – Goiás (GO) – ZIONI # 317J


Figura 4c – Santa Catarina (SC) – ZIONI # 317Z


Figura 4d – Ribeirão Preto (RPO) – ZIONI # 317Y

5 – Carimbo comemorativo

Quatro exemplos são mostrados na figura – 4.

Certos catálogos mencionam que existem carimbos comemorativos utilizados em trinta e uma localidades diferentes (ver referências [3], [5] e [6]).

O catálogo Zioni (referência [7]), contudo, relaciona apenas trinta localidades: de 317 para Amazonas (AM) e 317A para Alagoas (AL), até 317AC para Sergipe (SE) e 317AD para Uberaba (URA).

Acontece que esse catálogo pula de 317H (Diamantina – DTA) para 317J (Goiás – GO). Ou seja, não existe 317I (?). Ao que parece, essa numeração estaria reservada Espírito Santo (ES).


Figura 5 – frente – envelope circulado do Rio de Janeiro (DF) para Arbon, na Suiça, em
14/05/1952. Selo obliterado com carimbo datador.
Detalhes do porte no texto (6 – Envelopes Circulados).


Figura 5 – verso – carimbo com data de chegada no verso: ARBON 17. V. 52


Figura 6 – Envelope circulado do Rio de Janeiro (DF) para Hamburgo Velho (RS), em
11/05/1952. Carimbos comemorativos: ZIONI # 317V e ZIONI # 318 (20º aniversário da
Instituição do Curso de Ginástica pelo Rádio).
Detalhes do porte no texto (6 – Envelopes Circulados). Carimbo de chegada no verso:
12/05/1952.


Figura 7 frente – envelope circulado de Curitiba/PR para Hyattsville (Maryland, EUA),
em 11/05/1952. Carimbo comemorativo: ZIONI # 317R. Detalhes do porte no texto
(figura 6).


Figura 7 verso – carimbo de chegada no verso – HYATTSVILLE – MAY 17 1952 – MD.
(17/05/1952).

Os carimbos, todos na cor preta, são constituídos por três círculos concêntricos, com os seguintes dizeres:

a)     Círculo externo: CENT° da INSTALAÇÃO do TELéGRAFO ELETRICO no BRASIL

b)    Círculo central: – DR – CORREIOS e TELÉGRAFOS – XY

c)     Círculo interno: 1852   11 MAIO   1952

A diferenciação de um carimbo para o outro está na sigla XY que corresponde à localidade onde o mesmo foi utilizado. Exemplos: BRU para Bauru, DF para Distrito Federal (cidade do Rio de Janeiro, em 1952), SMA para Santa Maria, e assim por diante.

6 – Envelopes circulados

Nas figuras 5, 6 e 7 são mostrados, como exemplos, alguns envelopes circulados em 1952 e porteados com os selos do Centenário do Telégrafo.

No ano de 1952, os valores das tarifas postais vigentes eram aqueles estabelecidos pela Lei n° 498, de 28 de novembro de 1948. O início da aplicação dessas tarifas ocorreu em 1º de janeiro de 1949 (Decreto Nº 26.129, de 31 de Dezembro de1948). Tanto a lei como o decreto estão disponíveis na Internet, em:
http://www6.senado.gov.br/sicon/PreparaPesquisa.action.


Tabela 2 – Tarifas Postais vigentes no ano de 1952

Um resumo das tarifas postais vigentes em 1952 está na tabela – 2. Para aplicação do porte aéreo internacional, os vários países foram divididos em seis grupos tal como é indicado na tabela – 3. 

Na figura – 5 o porte correto deveria ser Cr$ 5,80 (via aérea internacional para a Europa, grupo 4) mais Cr$ 1,50 (carta registrada), totalizando Cr$ 7,30. O envelope possui franquia mista (C-278 + C-279) de Cr$ 7,40 (Cr$ 2,40 + Cr$ 5,00), ou seja, Cr$ 0,10 em excesso.


Tabela 3 – Grupos de Países para correspondência aérea internacional
Validade: desde 01/08/1938 a 31/07/1953

Na figura – 6 o porte correto deveria ser Cr$ 1,20 (via aérea interestadual) mais Cr$ 1,00 (carta registrada), totalizando Cr$ 2,20. O envelope possui franquia isolada (C-278) de Cr$ 2,40, ou seja, Cr$ 0,20 em excesso.

Na figura – 7 o porte correto deveria ser Cr$ 3,80 (via aérea internacional para os Estados Unidos, grupo 3) mais Cr$ 1,50 (carta registrada), totalizando Cr$ 5,30. O envelope possui franquia mista (C-278 + C-279 + C-280) de Cr$ 17,40 (Cr$ 2,40 + Cr$ 5,00 + Cr$ 10,00), ou seja, Cr$ 12,10 em excesso!

7 – Considerações finais

O autor deixa aqui seus profundos agradecimentos aos colegas da SPP que colaboraram com informações valiosas para a elaboração deste trabalho: Antonio Carlos Fernandes, Mário Xavier Jr., Sérgio Marques da Silva.

8 – Referências bibliográficas

[1] Xavier Jr., Mário. Os selos de Telégrafos no Brasil. Boletim Informativo da SPP (Sociedade Philatelica Paulista). Março de 2002. Páginas 4 – 6.

[2] Leite, Antonio Olivé. Catálogo de Variedades, Curiosidades e Acidentes de Impressão em Selos Comemorativos e Aéreos do Brasil. Editora Thurmann, Porto Alegre, RS. Edição: 1955. Número de páginas: 142.

[3] Thuin, Raoul Michel de. Catálogo de Selos do Brasil. Engenharia e Comércio Internacional Ltda. Brasília, DF. Edição: 1972. Número de páginas: 168.

[4] Meyer, Rolf Harald. Catálogo de Selos Brasil 81. Editora Ave Maria Ltda. São Paulo, SP. Edição: 1981. Número de páginas: 366.

[5] Leitão, Santos. Catálogo de Selos do Brasil. Santos Leitão & Cia. Ltda. Rio de Janeiro, GB. Edição de 1967 (30ª). Número de páginas: 340.

[6] Schiffer, Francisco. Catálogo de Selos do Brasil. São Paulo, SP. Edição de 1972 (30ª). Número de páginas: 256.

[7] Zioni, Ângelo Augustinho. Brasil – Carimbos Postais Comemorativos. São Paulo, SP. Edição: 1971. Número de páginas: 198.

[8] Pereira, Margareth da Silva. Os Correios e Telégrafos no Brasil – Um Patrimônio Histórico e Arquitetônico. Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos. São Paulo, SP. Edição de 1999 (1ª). Número de páginas: 242; 23 x 31 cm. ISBN: 85-901137-1-X.

[9] Costa da Silva, Mauro; De Castro Moreira, Ildeu. A Introdução da Telegrafia Elétrica no Brasil (1852-1870). Revista da SBHC (Sociedade Brasileira de História da Ciência), Rio de Janeiro, RJ. Volume 5, Nº  1, páginas  47-62. Janeiro / julho de 2007. Artigo disponível no site da SBHC:
http://www.mast.br/sbhc/inicio.htm.